Muita coisa poderia ser dita, de um ponto de vista objetivo e imparcial, sobre a morte de Rafael Mascarenhas, rapaz de 18 anos atropelado enquanto praticava skate num túnel na bela cidade do Rio de Janeiro.
No entanto, falar disso de forma objetiva e imparcial é, no momento, impossível. E errado. Celebrada ontem a missa de sétimo dia pela morte do jovem, a tristeza dos pais merece ser respeitada. Só Deus e quem já teve essa experiência terrível sabe o que significa essa dor, conhece o tamanho do seu potencial destrutivo.
O pai do rapaz, o músico Raul Mascarenhas, prestou uma bela homenagem ao filho morto, que era músico também: durante a missa, tocou uma música usando o saxofone do rapaz. “Que o meu anjo esteja no céu”, disse o pai, comovido e comovendo quem o ouvia.
Esse garoto está com Deus. Não tenho dúvidas disso. Porque, ao morrer, é em Deus que o ser humano se encontra, e se encontra de forma definitiva. É sob a luz de Deus que o ser humano, finalmente, consegue compreender a totalidade de sua trajetória, consegue avaliar a si mesmo e aos outros e consegue, do fundo de seu ser, adquirir aquela qualidade evangélica tão necessária à vida eterna: o arrependimento. Possível e desejável nesta vida, porque nos prepara para viver o eterno desde já, o arrependimento é também possível na morte. Cruzar o liame que separa tempo e eternidade não é suficiente para cancelar a oferta graciosa do amor de Deus: este é um amor mais forte do que a sepultura.
Queria dizer a esse pai, com palavras fortes o suficiente para furar a cortina de dor e penetrar no seu coração: “Tenha fé! Seu filho vive!” Vive mesmo. Vive em Deus.
Mas isso não diminui a injustiça dessa morte. Esse rapaz chegou antes do tempo ao eterno. E chegou por uma conjunção de fatores trágicos, que envolveram, sim, sua própria responsabilidade (afinal, aquele túnel não era lugar para a prática do skate), mas que envolveram também a responsabilidade de outros (também não devia ter ninguém fazendo “racha” ali dentro).
Uma morte injusta. Mas que não pode ser atribuída a Deus, como alguns, desesperados pela dor, pretenderam fazer. Não foi Deus quem atropelou esse rapaz. Ao contrário, em seu amor Deus sofreu com ele e sofre ainda, agora, com seus pais e amigos.
A responsabilidade pela vida neste belo mundo é nossa. De nada resolve responsabilizar a Deus pelas culpas que são nossas. Nosso trânsito é assassino. Nossa indiferença pela vida é criminosa. Cheios daquele “desejo de onipotência” que é típico do psiquismo infantil, achamos que podemos fazer qualquer coisa e, com isso, arriscamos nossas vidas e as vidas dos outros, jogamos fora o tesouro da nossa própria existência e carregamos conosco o tesouro precioso que pertence a outras pessoas. Precisamos mudar. Precisamos nos arrepender dos nossos maus caminhos.
Terá sido um preço alto demais se a morte dessa rapaz nos levar a refletir sobre isso. Deveríamos ter consciência dessas coisas sem necessitar dessa morte injusta. Mas ela aconteceu. Que Deus, o Pai de toda consolação, que sofre conosco as dores (mesmo aquelas que provocamos) nos ajude a viver neste mundo de forma mais humana e mais digna.