(Importante: O artigo a seguir não deve ser lido por quem ainda não assistiu ao final de Lost – a menos, obviamente, que não se preocupe em conhecer antecipadamente o final!)
Com seus seis anos de duração, Lost deixou de ser uma simples série televisiva para se converter numa mania. Isso se deve, claro, ao enorme cuidado da produção, às performances excelentes dos atores e, especialmente, à capacidade dos roteiristas de criar uma teia de mistérios absolutamente envolvente.
Às vezes nossa maior qualidade se torna nossa grande fraqueza. Com Lost aconteceu isso, na medida em que os roteiristas acabaram não conseguindo honrar todas as dívidas que assumiram ao longo das temporadas. Em outras palavras, muita coisa ficou por ser resolvida (sobre isso, aliás, a imprensa já vem comentando tem algumas semanas). Mesmo no último episódio me pareceu que a amarração das pontas não foi completa nem perfeita. Custa a entender como o Jack morto pode operar o Locke (igualmente defunto); também não faz muito sentido um morto (o Hurley) coordenando a chegada dos outros mortos ao encontro final (se morreram todos, para que coordená-los?)...
Não vou criticar os roteiristas. O novelo (a novela?) de problemas cresceu tanto que desenovelá-lo ficou praticamente impossível. Deixa prá lá. Desisti do perfeccionismo em matéria de entretenimento quando, assistindo Uma noite no museu, vi o boneco do presidente Roosevelt dizer que não podia ajudar o herói porque, afinal, era “somente um boneco de cera” e, no entanto, no finalzinho do filme a historiadora (!!) foi pedir informações à boneca de cera da moça indígena (quem assistiu, deve lembrar). Critiquei muito isso e recebi em troca o coro desaprovador da minha mulher e do meu filho. Não faço mais isso, é coisa de gente chata.
A verdade é que Lost surpreendeu positivamente (ao longo de todas as temporadas) e merece, portanto, mais elogios do que críticas. Mesmo o abuso da técnica do flashback acabou por se revelar interessante, tornando-se de fato no eixo da própria narrativa. Quanto ao suspense, perfeito, nunca esquecerei a sensação típica de cada fim de temporada... e a ansiosa espera pela temporada seguinte!
Mas este texto tem uma razão específica. Disse no twitter (@Ruiluisr) ontem que o final fez mais sentido do que muita gente pode pensar. Explico.
Décadas atrás, Jean-Paul Sartre escreveu sua famosa frase: “O inferno são os outros”. Anos depois, o brilhante historiador Jean Delumeau encerrou uma de suas palestras (que tive o privilégio de assistir, no Departamento de História da USP) sobre as representações do Paraíso ao longo da história com uma frase inspirada em Sartre, mas que o invertia completamente: “O Paraíso são os outros”. E completou seu pensamento: a bem-aventurança eterna passou a ser entendida como o relacionamento com pessoas queridas, sob a luz de Deus.
Ora, foi justamente isto que vimos no final de Lost. Numa frase iluminadora, o pai (defunto) de Jack diz ao filho o que significava aquele encontro dos protagonistas da história na igreja: afinal, eles tinham vivido a parcela mais significativa de suas vidas juntos; a eternidade faria sentido para eles apenas estando juntos. Daí o esforço todo de Hurley, Desmond e outros para reunir a turma.
Creio que Lost acerta aqui. Ecoando Delumeau (que, por sinal, é cristão), também creio que “o Paraíso são os outros”. Ligamo-nos às pessoas que amamos com laços que nunca se partirão; e a eternidade significa estar para sempre com essas pessoas.
Mas – e aqui aparece, ao menos na minha leitura, outro aspecto no qual Lost acertou –, estar com essas pessoas quando? Na cabeça de muitos deve ter ficado uma dúvida quando o episódio se encerrou: percebemos que a turma toda morreu, mas... morreu quando? Quando foi que, finalmente, os amigos se reencontraram?
Certamente não morreram todos na queda do avião; neste caso, a história toda teria sido pior do que novela espírita – teria sido absurda. Também não morreram num evento cataclísmico que tenha destruído a ilha; a prova está na conversa entre Benjamin Linus e Hurley, quase no finalzinho, quando Hurley admite que Linus “foi um bom ajudante” no seu trabalho de guardião da ilha. Ora, para isso era necessário que ambos tivessem permanecido juntos na ilha por algum tempo. Minha conclusão é que cada um morreu em seu próprio tempo, mas (e aqui está o fato relevante) todos chegaram juntos ao mesmo “lugar de reunião”!
O que está por trás dessa concepção é um consenso que cresce cada vez mais entre os estudiosos da escatologia bíblica: uma vez que morrer é estar para sempre no eterno, lá não pode haver espera. Alguém que morresse antes (Jack, por exemplo, que claramente morre na ilha no mesmo dia da partida dos sobreviventes) não poderia ficar na eternidade esperando a chegada dos demais (de Kate, por exemplo, que talvez morresse apenas várias décadas depois). Na eternidade estamos no agora (aqui, outra frase dita pelo pai de Jack!); não há espera. Há realização.
Não importa quando morremos, portanto (se em 1512, 1953 ou 2185): todos chegamos juntos ao eterno e, ali, nos reunimos aos que nos são caros. O espaço me impede de dar maiores detalhes sobre como a teologia mais recente pensa esses fatos (estou trabalhando com essas ideias neste momento, em meu curso de Escatologia do Indivíduo nos Cursos de Extensão da Comunidade Carisma). Mas simplemente pensá-los me enche de alegria. A morte não é separação (esta existe apenas para nós, na medida em que contemplamos tudo da perspectiva histórica), mas reunião de tudo e de todos.
E aqui surge o elemento que faltou em Lost. Foi uma pena ter faltado, porque sinaliza o quanto a Igreja ainda não conseguiu superar as vicissitudes históricas e imprimir em nossa sociedade uma perspectiva saudável e verdadeira acerca de Deus.
Quem faltou no capítulo final de Lost foi Deus! Sim, porque para Delumeau o Paraíso não é apenas “os outros”, mas “os outros, sob a luz de Deus”. O lugar da reunião daqueles amigos (cujos laços se forjaram ao longo de tanto sofrimento) só poderia, de fato, ser em Deus.
Eternidade não é tempo nem lugar. Eternidade é Deus. Ele é o Eterno, como a mística judaica frisa constantemente (ecoando as Escrituras). Morrer não é fechar os olhos aqui para abri-los num campo florido (ô raiva dessa pieguice que aparece nas novelas espíritas da Rede Globo!), mas fechar os olhos aqui para abri-los em Deus. Onde me encontrarei, pleno, integral, ressuscitado, completo, amado e repleto de toda a abundância possível de vida!
Deus é o “lugar” de encontro da turma de Lost... e o nosso lugar de encontro com os nossos, para sempre!
Mas talvez eu esteja sendo severo demais com Lost. O encontro derradeiro, afinal, aconteceu numa igreja. Talvez, na dinâmica do seriado (e na lógica de uma sociedade que, mal ou bem, aprendeu a pensar apenas em termos seculares) essa seja a única maneira possível de dizer aquilo que estou procurando enfatizar. A escolha da igreja como lugar da reunião teria enfatizado que o encontro se dá no divino e tão somente nele.
Se for assim – e excetuando aquelas dívidas já aludidas e que não foram saldadas pelos roteiristas –, então não terá faltado mesmo nada ao final de Lost.